Flashdance!!!

Havia um ano que eu morava em Ourinhos quando me deparei com um folheto informativo: Escola de Bailado – Inscrições abertas.
De repente, flashback...
Fiz aula de Jazz dos onze aos catorze anos. Na época, eu era alucinada por dança. Treinava horas com minha prima coreografias que nós mesmas criávamos para depois fazermos apresentações constrangedoras nas festinhas de família. Assistíamos “Flashdance” incansáveis vezes e passávamos o resto do dia grudadas na parede alongando a virilha.
Nunca consegui abrir “Spacatti” e minha escola de dança jamais ganhou um prêmio nos festivais. Apresentei-me somente duas vezes no Teatro Municipal - uma fantasiada de “cheerleaders” e a outra de múmia.
Bons tempos que agora pulsavam em minhas mãos. O panfleto anunciava vaga em todos os cursos: Balé, Sapateado, Dança de Rua e “Jazz”... Idade mínima: 14 anos.
Oportunidade ímpar, pensei! Meu segundo filho havia acabado de entrar na escola e eu tinha a tarde toda para voltar a ser eu mesma!
Senti um certo acanhamento, confesso, mas no mesmo dia lá estava eu na secretaria da “Escola”. Ensaiei alguns minutos para entrar na fila, olhei ao redor, havia umas senhoras como eu - provavelmente inscrevendo suas filhas! Não perguntei nada, não conversei com ninguém, apenas preenchi o formulário e saí com um papelzinho que indicava o dia da prova prática. Mantive sigilo absoluto, afinal, eu tinha um exame pela frente e, se tudo mais falhasse, pra que o mico antecipado?
No dia da avaliação secreta, tomei um suco de laranja e comi uma fatia de torrada com queijo branco, vesti uma calça “legging” azul marinho e uma “baby look” branca com estampa de menina virando pirueta. Penteei o cabelo com um rabo de cavalo bem no alto da cabeça, calcei meu tênis, montei na “bike” e avisei: - Amor, vou dar um “rolê” de bike, já volto.
FUI! Desci a ladeira que chegava na escola de bailado a milhão. Sensação inexplicável, intensa, vibrante! Perdi o controle. Embalei costurando os carros na avenida, e ria, e cantava: “What a feeling”. Momento único de nostálgico prazer. Senti o vigor da mocidade e deixei a "gravidade" me levar...
CHEGUEI! Só dava meninota. As pessoas me observavam ansiosas e procuravam minha filha, sobrinha, vizinha. Era tarde, não dava para voltar atrás, o jeito era assobiar e enfrentar.
Procurei no meio da confusão alguém com mais de quinze anos para eu encostar. Nada! Parei na fila, mirei uma árvore no horizonte e aguardei a chamada!
De uma longa rampa desceram três moços com trejeitos e calças folgadas. De repente gritaram meu nome e minha direção: SALA 4, piso superior, terceira porta à direita. Segui o fluxo num total embaraço. Entrei na sala onde já havia umas meninas que se alongavam na extensa barra lateral. À frente, um espelho colossal que escancarava meus fofos culotes, o lombinho da nuca, a massinha da cintura e as simpáticas rugas que brilhavam na luz fluorescente da sala.
No canto estavam posicionados os quatro examinadores. Um deles deu início às instruções. Primeiro seriam os exercícios de alongamento, depois coordenação e por último improvisação e criatividade. Acenei positivo com a cabeça.
O alongamento começou.
- Sentem-se, agora alonguem o tronco sobre a perna e segurem a ponta dos dedos com a mão. Maravilha meninas! Agora deitem e estiquem a perna segurando o dedão do pé. Isso, muito bem!!! Hora de ficar em pé e alongar o tronco até espalmar o chão. Ótimo, vocês estão divinas! Sentem novamente e abram as pernas o máximo que puderem. Agora alonga! Isso, vai, caprichem! Beautiful!
Pensa numa coisa torta, nenhum dos meus músculos ficava reto, cheguei no limite da dor e isso era bem longe da ponta dos pés.
O ponto máximo da humilhação foi quando ele pediu para que segurássemos a barra com uma das mãos e com a outra esticássemos a perna lateralmente. Impossível! As garotas se aplicavam para manterem postura e expressão de bailarina e eu suava em bicas na tentativa de não derrubar a barra e levar as bailarinas todas ao chão.
Meio pendendo para frente e arreando para os lados, consegui me equilibrar numa posição bem estranha!
Prova n º 2: coordenação.
O instrutor executava um movimento no ritmo da música e nós devíamos imitá-lo. Saíamos em blocos de três andando até o espelho, ora batendo palma e levantando uma só perna, ora virando a cabeça para o lado esquerdo, estalando os dedos do lado direito e levantando as pernas alternadamente, ora levantando um braço de um lado e a perna do outro... E tantas outras variáveis envolvendo pernas, braços, mãos e cabeça. Que cena! Tinha desde gente meio descoordenada até aquelas completamente desmembradas que certamente confundiram palmas com piscadas, braço com língua e pernas com cacoete de pescoço. Acho que tive êxito nesta prova.
Finalmente era chegado o teste de improvisação. O examinador explicou que colocaria uma música e deveríamos dançar livremente, sem medo de ser feliz.
Era a última chance de demonstrar meu potencial. Observei as meninas que trocavam risinhos e tomei frente no grupo.
Começou a música... Agachei e fui levantando o braço lentamente acompanhando a cadência dos metais. Quando a bateria entrou, ergui o tronco subitamente e remexi no compasso das baquetas. Aos poucos fui me soltando - Passo, contratempo, passo contratempo, braços para frente, pernas para o alto, muitos rodopios, cabeça para todos os lados, abaixa, levanta, rebola. Enquanto as adolescentes se amontoavam desajeitadas no fundo da sala, eu ocupava um espaço anormal. Percebi o espanto dos examinadores, mas também o temor de minhas adversárias e prossegui confiante. A música, que parecia interminável... Finalmente silenciou. Ajoelhei e inclinei a testa nos joelhos. Fantástico, abafei!
Durante a atribuição de notas, as garotas se aproximaram e me parabenizaram por minha completa falta de noção. Trocamos endereço de e-mail e fizemos amizades divertidas. Peguei carona com uma delas que se corresponde comigo até hoje.
O resultado veio depois de uma semana. Tchan, tchan tchan tchaaaan...

PASSEI, ou melhor, passamos todas! Outro resultado??? Um dia depois fiquei sabendo que estava grávida de dois meses do meu terceiro filho... Achei que além dos “culotes”, não ia pegar bem fazer aula de barrigão. Valeu a experiência, meu caçula adora música e requebra sobre a mesa da sala como ninguém!

3 comentários:

  1. Você não perde por esperar, Cinthia. A menos que vocês enfileirem o quarto, o quinto e mais alguns na série "Rebentos, razão do nosso existir",logo você terá oportunidade de prestar nova prova e, detalhe, sem barrigão. Aí você vai nos mostrar também esse seu lado, digamos, bailarina. bjs ;D

    tia Neu

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  2. OI CINTIA
    ADOREI A HISTORIA, VOU FUNDAR UMA EDITORA, VOCE ESCREVE E TODOS FICAMOS RICOS, HAHAHAHA
    BJS
    FAMILIA GEORGETTE E MAURICIO

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  3. Bem.. lá vai o leigo comentar. Confesso que minha imaginação foi além de seus compassos, passos, requebros e trejeitos.
    Prima.. quem te conhece que te compre... e não sobra troco.
    Genial.
    Beijão

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