Presente de Vizinha!


Minha vizinha é um presente... Tagarela, baixinha, risonha, briguenta, casada, mãe de duas meninas, dona de um restaurante e amante dos bichos... Na semana em que me mudei para a casa onde moro (desde 2005) conversamos no portão sobre cachorro, gato, coelho, passarinho, peixe, formiga, pernilongo...
Ela contou-me que já havia tido tudo quanto era bicho, inclusive um hamster fofo.
No dia seguinte convidou-me para seu aniversário. Pensei na conversa que tivéramos e busquei imaginar um presente que demonstrasse meu apreço por ela. Como não tínhamos conversado sobre perfumes, chocolates, lingeries... Porque não um animalzinho?
Aaaaah! Talvez eu pudesse consertar a perda que ela sofreu quando seu hamster morreu. Isso poderia selar com afeto o início de nossa amizade duradoura. Liguei decidida para a loja e encomendei o bichinho. Gaiola? Era dez vezes o preço do rato
- Não precisa moço, a vizinha ainda deve ter uma guardada na garagem.
Blim, Blom! 
Chegou o homem com uma caixinha na mão cheia de buraquinhos. Segurei tensa aquele volume. As unhas afiadas do bicho arranhavam o papelão fazendo um som sinistro. Ai, que nervo!
Corajosa passei um laço de fita vermelho no papelão e fui me arrumar. Era preciso ser ligeira, a qualquer momento o lacre poderia se romper. 
Entrei no banho, liguei o chuveiro e...
- MÃÃAE! O rato fez um buraco na caixa!
Até eu me enrolar na toalha e chegar à sala, o rato havia fugido, a cachorra se embolou na cortina, meu filho escalou uma porta e o marido armou-se com um rodo. Ao avistar o rabinho depilado do mamífero, Nelsinho saltou sobre o sofá, lançou-se ao chão e esganou de leve a barriga do ratinho. Sobrevivemos todos.
Arrumei um potinho de margarina, menos elegante que o papelão, porém, mais resistente. Furamos com garfo quente e reforçamos as saídas laterais com durex. O conjunto dispensava a fita vermelha.
Meu marido recusou-se a ir ao aniversário. Fui eu, meu menino mais velho (4 anos na época), meu filho do meio (1 mês) e o rato. Já no portão apreciei o estilo da festa. Faixas de cetim brancas, arranjos de copos de leite e tochas acesas formavam o caminho da recepção. Sobre uma mesa farta de queijos, patês, torradas e vinhos havia um candelabro sorrindo pra mim. O chão era coberto por folhas verdes e garçons elegantes circulavam pelo ambiente.
Na entrada, alguém para receber o presente!!! Recusei-me a entregar, fazia questão de dar em mãos!
Eu trajava Jeans, uma camisete branca manchada de leite na região das mamas e tênis “all star” vermelho. O cabelo preso por uma piranha dava um toque diferenciado ao penteado. Para terminar de compor o visual, um pote de margarina esburacado na mão... Confuso, meu filho assistia a tudo:
- Mãe! Você vai dar este rato?
- Vem filho! Não fala nada!
Entrei espatifando ovos, cumprimentei a aniversariante e entreguei o POTE! Ela sorriu e começou a despregar os durex com cautela, curiosidade e desconfiança. A filha ao lado mostrava-se ansiosa pelo conteúdo do recipiente que vibrava e saltitava.
O fato se deu! Ao abrir a tampa a alinhada vizinha soltou O GRITO. Desgovernada arremessou o pote à altura do topo de uma mangueira, a tampa abriu, o rato decolou e o recipiente de margarina retornou vazio. A filha saiu desesperada pela alameda das tochas até sumir em meio aos copos de leite. Os convidados correram amontoados pisoteando as folhas verdes em direção ao candelabro. Eu soltei uma gargalhada nervosa, sem sentido, e aproveitei a baderna para me acomodar em uma mesa atrás das faixas de cetim. Dali não levantei até o fim...
Nunca mais o assunto surgiu no portão. Expliquei ao meu filho que o rato fôra encontrado, cuidado e amado!
Confesso que até hoje sinto uma coisa ruim quando me lembro desta história e não entendo... Porque não uma caixa de chocolate?



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